“Agradeci a Deus, porque perdi meu pé, mas não perdi a minha vida”, diz sobrevivente

Aline Tonello

As cicatrizes na perna e no pé de Irna dos Anjos jamais vão deixar que ela esqueça a tarde do dia 20 de abril de 2015. Se estivesse em casa, no Bairro Vila União, onde mora há mais de 20 anos, a mulher de 65 anos nada teria sofrido com a passagem do tornado. Porém, Irna estava na rua e, quando viu o tempo feio, se abrigou no lugar em que nem ela e nem ninguém poderia imaginar que fosse ceder às forças da natureza: o ginásio Ivo Sguissardi, no Bairro dos Esportes.

 

Como tudo aconteceu

Na tarde daquela segunda-feira (20), Irna estava na casa de uma das filhas que havia dado à luz recentemente. Ao perceber que faltavam alguns mantimentos para a filha, Irna foi para casa, tomou um banho e saiu para comprar o que precisava. Passou no posto de saúde do Bairro dos Esportes e seguiu fazer compras no Mercado Arvoredo. Quando saiu do mercado para voltar para casa, ela percebeu que estava começando a chover e, mesmo tendo consigo um guarda-chuva decidiu atravessar a rua e se abrigar em frente ao ginásio Ivo Sguissardi.

– Daí eu fiquei a par do ginásio para esperar passar a chuva e ir para casa. E daí naquilo eu não vi mais nada, só me lembro de erguer a minha mão e pedir proteção para Deus e apaguei ali, de pé mesmo. Não lembro mais de nada, não ouvi barulho nenhum, não vi desmoronar e nem nada. Dali passado um tempo parece que Deus me acordou e daí vi tudo aquilo, mas não me assustei. Daí olhei para o meu pé, os dedos estavam todos moídos e tinha um negócio em cima do meu pé, blocos de cimento ao redor de mim e eu fiquei no meio – relembra.

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A senhora buscou se abrigar no ginásio, mas foi onde sofreu os mais graves ferimentos (Foto: Carol Debiasi/Tudo Sobre Xanxerê)

Mesmo com a gravidade dos ferimentos, Irna conseguiu tirar os restos de construção de cima do pé e sair para pedir ajuda. As sacolas que carregava ficaram por baixo dos destroços.

– Eu saí caminhando por cima daquilo lá com o pé ensanguentado e a minha perna eu não tinha visto que estava machucada, porque eu estava de saia longa. E eu saí caminhando, pulando por cima de tudo e não tinha dor. Daí eu vi que vinha subindo um homem, daí eu fiz sinal e ele já estava vindo até mim. Depois meu genro me encontrou de carro porque ele trabalha ali por perto e ele se assustou em como eu estava. Foi ele que viu a minha perna, me levou para o hospital e eu fui até lá segurando a perna com a saia – conta.

Irna diz que conseguiu manter a calma o tempo todo e ainda pediu para os médicos não contarem à família que o caso era grave. Depois de perder muito sangue, ir para o centro cirúrgico, ter o pé amputado e a perna costurada, ela ficou internada por 45 dias. Havia preocupação quanto à cicatrização, uma vez que Irna tem diabetes.

– Eu não senti dor em nenhum momento, nem quando aconteceu e nem no hospital.  Quando eu vi meu pé amputado eu agradeci a Deus pela minha vida, porque eu perdi meu pé, mas não perdi a minha vida. O que o Senhor fez foi um milagre. O que aconteceu ali, no ginásio, se eu tivesse morrido, iam me achar um tempo depois, ninguém sabia que eu estava lá – afirma.

 

Um ano depois

Viúva há 13 anos, Irna passou por quatro cirurgias no pé e convive com a dificuldade de caminhar por não ter um calçado adequado para o problema.

– Não podia por o pé no chão por não ter calçado. Daí tinha que colocar pano ao redor para poder pisar no chão, ir para fora de casa, fazer minhas coisas – comenta.

Há cerca de dois meses ela conseguiu um calçado adaptado e com algodão dentro para dar um pouco mais de conforto. Mesmo assim Irna ainda tem dificuldade de locomoção e realiza fisioterapia duas vezes por semana para aliviar as dores nas pernas e fortalecer a musculatura.

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Dona Irna mora no Bairro Vila União e contou como vive um ano após ter o pé amputado (Foto: Carol Debiasi/Tudo Sobre Xanxerê)

– Eu coloco uma meia e devagarinho eu vou, mas ainda não consigo ir para o centro. Eu vou me agarrando e faço o serviço aos poucos. Para quem os médicos diziam que não ia mais andar, que ia só usar cadeira de rodas, eu confiei em Deus, batalhei e hoje estou aqui andando – diz.

Mãe de quatro filhos e avó de oito netos, Irna mora sozinha na casa que não foi atingida pelo tornado. Apesar das dificuldades de locomoção que enfrenta no dia a dia, ela é grata por ter sobrevivido em um local em que só sobraram destroços.

– Onde eu vou eu dou meu testemunho do que Deus fez na minha vida, não tenho vergonha. As pessoas ficam admiradas. Se não fosse Deus eu não estaria aqui, só meu genro viu como eu estava, poderia ter morrido, mas eu sempre confiei – finaliza.

 

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Além da amputação, Irna teve outro grave ferimento em parte da perna (Foto: Carol Debiasi/Tudo Sobre Xanxerê)
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