Depois de sofrer com tornado em 1976, família presencia novamente o fenômeno 40 anos depois

Aline Tonello/Leticia Faria

Dia 15 de dezembro de 1976. A família de seu Adi e dona Diva Bao morava na comunidade de Barro Preto, interior de Xanxerê, há pouco mais de um ano e meio quando um tornado atingiu a residência, levando tudo. Do casal e os nove filhos que estavam dentro da casa no momento, apenas uma das filhas sofreu um arranhão na cabeça. O fenômeno não foi classificado e documentado como tornado na época, “mas foi igual ao que aconteceu em 2015”, afirma Clovis Boa, um dos filhos.

O que aconteceu por volta das 23h30min daquela noite nunca saiu da memória de Adi, de 84 anos, Diva, de 78, e dos filhos que, na época, tinham idade para entender o que aconteceu. Clóvis, um deles, tinha quase 11 anos e ainda guarda uma lembrança viva do fenômeno que levou embora a casa de madeira grossa em que morava com a família. A residência era praticamente nova e o coberto de zinco havia sido colocado havia menos de um mês. Todas as pessoas tinham ido se deitar, menos duas das meninas, que ficaram na cozinha fazendo conserva de pêssego.

– De repente se armou esse tempo escuro e quando veio, veio chuva e vento junto. Nós víamos os relâmpagos longe. Aí o vento veio arrebentando o mato já. Baixou aqui, pegou a nossa casa, ergueu e foi embora. Ergueu a casa inteira, aí desgrudou o coberto e a casa caiu um metro e pouco fora do cepo, furou todo o assoalho e a madeira das paredes triturou. Aí o vento foi levando a lavoura, quebrou todo o milho que a gente tinha plantado – relembra.

O vento arrancou árvores grandes inteiras, quebrou e torceu outras. Clóvis comenta que 13 folhas de zinco ainda com madeira da residência foram parar em Ponte Serrada. Algumas peças de roupas foram encontradas pela vizinhança, há cerca de 1,5 Km do local.

Eu acredito que escapei porque tinha um monte de calcário em baixo da casa, uns 80, 100 sacos. A primeira janela que estourou foi a do meu quarto. A parede caiu em cima da minha cama, mas com a janela aberta, aí eu saí por ali. E o meu irmão, que dormia comigo na mesma cama ficou lá dormindo, ficou até bravo quando fomos chamar ele, porque ele não queria acordar. Aí nós saímos andando por cima das coisas. De dia, se alguém caminhasse ali onde a gente saiu andando, duvido que não pegasse um prego no pé, e nós caminhamos no escuro, embaixo de chuva e a casa ficou toda triturada – conta.

 

Clovis mostra o local onde a casa estava, em 1976

 

O filho mais novo tinha apenas sete dias quando tudo aconteceu. Dona Diva cuidava do bebê que dormia no berço no quarto dos pais junto com o irmão de um ano e meio. Ela saiu da cama para buscar um ramo de olivo e uma vela para “benzer o tempo”, mas não conseguiu.

– Eu quando desci da cama, não sei, acho que Nossa Senhora me deu essa ideia e disse “volta pra cama e pega o teu nenê”. Eu peguei ele e me ‘acroquei’ no meio do colchão e o outro pequeninho na cama gritava. Eu vi que levantou a casa, aí a mais velha gritou “se foi o teto da casa” e naquilo a casa sentou – recorda Diva.

Com a casa destruída, a família procurou abrigo no local onde ficava um galpão e do qual só sobrou o assoalho e a cocheira. Seu Adi foi procurando os filhos em meio aos escombros na completa escuridão e levando para o local.

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Durante o temporal, estava na casa o casal e os sete filhos (Foto: Arquivo pessoal)

– Eu lembro de tudo, eu sofri demais naquela noite. Eu ia juntando as piazada e colocava dentro dos cochos das vacas, porque só sobrou isso. Mas tem que enfrentar, tem que aceitar – disse.

Seu Adi encontrou com facilidade todos os filhos, menos Bernardete.

– Na hora que ele foi recolher as crianças, os mais grandes estavam em volta de mim. Aí ele pediu da Bernardete, que é a mais velha, só ela não estava ali. Aí minha filha foi para o lado do quarto que ela sabia que a menina estava, aí ela gritou “pai vem aqui que ela está presa embaixo das tábuas e eu acho que ela está morta”. Aí o Adi foi lá, levantou as tábuas e ela estava embaixo. Ela só teve um arranhão atrás da orelha. Só ela que se machucou um pouco – conta dona Diva.

 

O casal lembra com detalhes daquela noite

 

Reconstrução

Para se reerguer a família contou com a ajuda de parentes e vizinhos com a mão de obra. Clóvis comenta que ganharam madeira velha de uma ponte que tinha perto de onde moravam para reconstruir a residência. Houve boatos de que o Estado direcionaria R$ 58 mil para os atingidos, mas o dinheiro nunca chegou.

– Fizemos um empréstimo para construir. Tanto é que fomos conseguir sair da dívida do banco em 1988, por causa disso aí. E só conseguimos sair porque eu fui para o Mato Grosso, trabalhei um tempo lá, voltei e daí quitei a dívida do banco, que era de 130 mil cruzeiros – afirma Clóvis.

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A casa da família Bao ficou destruída pelo tornado, em 1976 (Foto: Arquivo pessoal)

 

Tornado de 2015, lembrança de 1976

No dia 20 de abril de 2015 Clóvis, a mulher e a filha estavam no centro de Xanxerê quando o tempo fechou.

– Aí começou um pouco de vento e eu disse para pararmos um pouco, esperar passar a chuva, porque eu não enxergava nada para dirigir. Então paramos em frente ao posto de saúde Hélio Ortiz, e aí começou o barulho e nós vimos tudo o que aconteceu. Nesse momento eu lembrei de 76. Se a gente tivesse vindo para casa na hora do tornado, ia pegar a gente na estrada – falou Clóvis.

Seu Adi, com fortes lembranças do que aconteceu no passado, preferiu não ver os estragos na cidade depois que o fenômeno de 2015 passou.

– Eu nem fui ver o tornado do ano passado, porque eu me lembrava do que aconteceu, chegava a me dar um arrepio. Esse tornado de 1976 só pegou aqui na minha propriedade, destruiu tudo, levou tudo. Não queria ver tudo aquilo de novo – disse.

 

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