Major do Corpo de Bombeiros sobre tornado: “O fato é que vai acontecer de novo”

Aline Tonello/Carol Debiasi

Do dia 20 ao dia 31 de abril de 2015 o 14º Batalhão do Corpo de Bombeiros realizou a Operação Tornado, que envolveu todo o efetivo de bombeiros militares e comunitários de Xanxerê, além de contar com o auxílio de equipes de toda a região. Durante 11 dias a força tarefa prestou os mais diversos auxílios à comunidade, com ações que foram desde atendimento e condução de feridos para hospitais, desobstrução de vias, corte de árvores e fornecimento de lonas até a distribuição de mantimentos aos atingidos.

Um ano depois da tragédia que pegou civis, poder público e até o Corpo de Bombeiros despreparados, a equipe do TUDOSOBREXANXERÊ.com.br conversou com o major Walter Parizotto sobre o que mudou nesse período, seja no comportamento da população ou nas ações do governo para que haja mais proteção em caso de novo desastre ambiental. Confira a entrevista:

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Major Walter Parizotto fala da ação e dos trabalhos realizados até este primeiro ano da passagem do tornado (Foto: Carol Debiasi/Tudo Sobre Xanxerê)

 

TUDOSOBREXANXERE.com.br: Como foi a partir da tarde do dia 20 de abril, para o Corpo de Bombeiros de Xanxerê?

Major Walter Parizotto: Inicialmente nós fomos despachados pela nossa Central de Operações para uma única ocorrência, que foi fora da cidade inclusive. Quando o vento atingiu a cidade, nós ficamos sem comunicação. Embora a gente tenha ficado fora de onde passou o tornado, o vento, aqui no quartel, destruiu várias portas, janelas e como nós estávamos em obra, nós tínhamos a repetidora aqui em cima, a antena, e a nossa antena sumiu, a gente não faz ideia de onde está a antena. Então, nós ficamos absolutamente sem comunicação.

 

TSX: Como foram os atendimentos naquelas horas?

Major Parizotto: Nós fomos deslocados para uma única ocorrência. As demais, quando a gente conseguiu reagrupar a equipe, elas foram desprovidas de técnicas, a gente não conseguiu filtrar quem precisava de atendimento primeiro. Tanto que não temos números corretos de quantos foram os atendimentos porque as equipes saíram quatro horas da tarde e retornaram 22, 23 horas e não conseguiam chegar no fundo das ocorrências. Iam chegando, eram abordados novamente. Nós conhecemos a plenitude do evento só no dia seguinte. Inclusive, a nossa grande angústia naquela noite era encontrar corpos no dia seguinte em meio aos destroços. Foi muito difícil os atendimentos, foram desprovidos das nossas principais técnicas para isso. Nós não atendemos com prioridades, mas atendemos todo mundo que foi possível, foi um atendimento extraordinário.

 

TSX: Quais as principais dificuldades?

Major Parizotto: A comunicação, não só a nossa antena. Por que a nossa antena implicou na comunicação da nossa com a equipe. Mas, os celulares da cidade, o fato dos celulares ficarem mudos não permitiu que a sociedade se comunicasse conosco. Essa foi a principal dificuldade. Em uma das situações nós tínhamos centenas de pessoas na lista de desaparecidas aqui e que as pessoas encontravam e não ligavam de volta, inclusive crianças. Nós ficamos até tarde procurando essas pessoas que não precisariam ser procuradas.

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TSX: O quartel, o efetivo estava preparado para uma ocorrência desse tamanho?

Major Parizotto: Não, nenhuma cidade do Estado teria capacidade para atender uma demanda como essa em um intervalo de tempo como esse. Nós estamos preparados hoje para atender uma coisa por vez. Você pensar em 600 atendimentos por vez eu creio que em nenhum local do Brasil não se tem um preparo para isso. Você não maximiza a tua estrutura para isso. Mas até hoje estamos razoavelmente bem, nós conseguimos atender até cinco ocorrências simultâneas. Temos guarnição para uma, mas temos estrutura para cinco, mais que isso não.

 

TSX: Qual a lição que a corporação tira de todo trabalho prestado, de tudo que ocorreu?

Major Parizotto: O tornado mudou nossa história. Mudou a história da corporação de Xanxerê e está mudando, de forma muito lenta, a história da corporação no Estado como um todo. É claro que assim, o agente púbico tem um tempo de resposta muito lento. Não tenho dúvida nenhuma que Xanxerê hoje possui um Batalhão de bombeiros graças ao tornado. Não fosse o tornado e a necessidade, ele foi decisivo para isso.

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TSX: E agora, chegamos ao primeiro ano da passagem do tornado por aqui e, o que efetivamente mudou?

Major Parizotto: A primeira preparação do Estado foi para alagamentos e enchentes. Com o evento de 2008, ele migrou também para deslizamentos. E agora vai migrar, apesar que o furacão Catarina já tinha acontecido, mas ele não conseguiu comover muitas pessoas ou alguém não tinha comprado essa ideia, nós não tínhamos preparação para atendimentos a desastres de origem eólica. Então, hoje quando eu vou lá na academia para dar aula aos alunos de coisas que inicialmente eram muito subjetivas, eu não preciso mais pegar um evento lá de 1959, não, está vivo na cabeça das pessoas e eu sinto que os novos bombeiros estão aceitando melhor isso. Então, nós teremos uma geração melhor, porque estamos preparando esse pessoal melhor.

 

TSX: E quanto ao Batalhão de Xanxerê?

Major Parizotto: Nós atendemos a 30 municípios. Nós estamos criando um plano de resposta mútua e de preparação para enfrentar tornados, começando por comunicação. Hoje nós já estamos criando uma rede de comunicação, inclusive já licitamos, para resolver isso. Pelo menos em uma hora nós teremos, em qualquer cidade que acontecer, uma estrutura de resposta melhor. A corporação mudou. Porque antes de 21 de abril de 2015, não existia no rol das preparações da corporação a palavra tornado. Hoje, ela é uma das que está no topo. Quando a gente faz um diagnóstico das nossas deficiências, o tornado sem dúvida é a primeira. Nós estamos muito bem para alagamentos, enchentes, para deslizamentos, mas estamos zerados para tornado, estamos escrevendo ainda mas nós estamos criando, com base nas experiências que nós temos, uma estrutura para que a gente melhore o nosso enfrentamento para os desastres de origem eólica, que não são só tornados.

 

TSX: Quanto à situação de segurança, como funcionariam os abrigos subterrâneos?

Major Parizotto: Não adianta absolutamente nada nós termos radares que vão avisar que o tornado vai chegar se as pessoas não têm para onde se dirigir com segurança. Eu não consegui ver isso de forma prática na sociedade. Obviamente que muitas casas que eram de madeira agora estão construindo estruturas mais resistentes. Mas não é só a estrutura resistente, você precisa proteger-se com janelas, porque você tem projeção de materiais do meio externo. Então nós realmente precisamos trabalhar com abrigos anti tornado de forma eficiente.

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Homens e máquinas atuaram durante vários meses em Xanxerê (Foto: Carol Debiasi/Tudo Sobre Xanxerê)

TSX: Já teve algum registro da construção de algum abrigo em Xanxerê, seja pela iniciativa privada o até mesmo pública?

Major Parizotto: Aqui em Xanxerê ninguém que eu tenha conhecimento fez isso. Nem o poder público e nem o privado. As casas, mesmo de madeira, precisam ter uma célula resistente. Casas com laje minimizam o risco, não resolvem na totalidade. Dependendo da intensidade, ela colapsa. O ginásio colapsou. Ela precisa ser toda protegida. Se o vento, de alguma forma entrar, ele vai se concentrar ali e essa energia vai acabar se dissipando em algum local. Aquela célula não pode ter janelas, ou precisa ter janelas protegidas, porque materiais podem vir do ambiente externo.

 

TSX: Diversas casas são construídas ou reconstruídas nas áreas atingidas pelo tornado. Em parte delas, os proprietários passam a optar por construir com lajes, o que traz mais segurança. Outros não por conta da situação financeira. Essa atitude, de reconstruir as casas com laje pode ser uma alternativa de segurança eficaz?

Major Parizotto: A laje por si só não resolve. Se você observar, tinha edifício construído com essa estrutura, próximo ao ginásio que, felizmente, todo aquele material que foi projetado pegou na parede. Se tivesse pego em janelas, se tivesse pego em estruturas mais fragilizadas e se tivesse pessoas próximas, não teria resolvido, mesmo sendo uma estrutura mais eficiente. A laje por si só não resolve, minimiza.

 

TSX: O município constrói uma escola, no Bairro Leandro, para centenas de crianças e não prevê a construção desta célula. O projeto de reconstrução do ginásio Ivo Sguissardi, totalmente destruído pelo tornado, também não contempla essa área de segurança. Qual sua opinião sobre essa situação?

Major Parizotto: Construir escolas hoje, sem proteção anti tornados é uma irresponsabilidade. Nas escolas nós vamos ter um grande número de crianças que, teoricamente, terão uma capacidade de proteção muito menor do que os adultos e que não terão escolha. Nós temos que preparar as pessoas. Nós até temos uma palestra que a gente desenvolveu para preparação das pessoas. Mas, fundamentalmente para tornado, as pessoas precisam sair do local vulnerável, organizar-se e posicionar-se em um local resistente aos tornados. Se uma escola não tem um local para onde as crianças possam ir, você não tem proteção para tornados, independente do tipo de qualificação que você der para as pessoas. Eu penso que necessariamente, aquilo que for público deveria ter isso. E principalmente, estabelecimentos de ensino, que trabalham com grande fluxo de pessoas, crianças principalmente em um mesmo local. Você vai ter um prédio onde você vai ter, em alguns locais, algumas centenas de crianças naquele momento, você precisa protegê-las. E isso o poder público deveria fazer. E, infelizmente, eu não tenho visto isso acontecer.

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TSX: Para finalizar, qual sua avaliação sobre o tornado, agora que está completando um ano do fenômeno?

Major Parizotto: Nós estamos mais preparados para o próximo, que vai acontecer. Estamos há um ano mais próximo do próximo. Quando se fala em fenômenos climáticos, qualquer coisa que você trata de fenômenos climáticos, você precisa considerar o mínimo de um período de 30 anos. Qualquer coisa que você falar em menos de 30 anos, ela não tem efeito climático. Então, para o planeta, para a história do planeta, esses intervalos de tempo podem ser grandes ou podem ser pequenos.

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Mas o fato é que vai acontecer de novo. Então nós estamos mais preparados para isso. Essa geração que está vindo, certamente vai crescer com essa história, e as pessoas da região, então certamente vão se preparar. E isso não pode ser esquecido, se for esquecido as pessoas não vão se preparar para isso. Durante o tornado, nós tivemos boas experiências, muito boas e talvez a melhor experiência que a gente pode dizer, porque nós conseguimos aplicar aqui uma doutrina, um sistema de comando de operações que nós colocamos, aqui nessa sala que estava em obras, quebrada, frente a frente, olhando no olho, as pessoas da cidade, com poder de decisão. Então as decisões foram tomadas juntas e isso é fundamental. Do ponto de vista de emergência, nós resolvemos absolutamente tudo em três dias. Tivemos algumas felicidades, apesar de tudo. Se o tornado tivesse acontecido talvez em outra cidade, que não Xanxerê, nós teríamos uma dificuldade maior para nos organizar, porque aqui, em função do centro de treinamento, em função das formações que a gente faz. Porque aquela formação básica é igual para todos eles. O nosso pessoal está mais preparado para isso, então isso permitiu que a gente tivesse essa resolubilidade um pouco melhor. Mas me frustra saber que o tempo está passando, algumas coisas estão sendo esquecidas. O tornado tinha que mudar a cara da nossa sociedade, mudar mais o perfil das pessoas, porque esse é um fenômeno que convive conosco, ele não foi único e para muita gente passou.

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