“Não vou esquecer nunca mais”, diz caminhoneiro que teve prejuízo de mais de R$ 100 mil

Aline Tonello

Sentado na área de casa, aproveitando um dia de sol, Valmir Tonello já consegue falar com mais tranquilidade sobre os momentos de desespero que viveu com a esposa Gilse e a filha Ísis na passagem do tornado. O fenômeno levou toda a cobertura da residência, tombou o caminhão com o qual ele conseguia o sustento da família e destruiu completamente a casa dos sobrinhos. Um ano depois da tragédia e com muitos reparos ainda por fazer, Valmir precisa de remédio para conseguir dormir e ainda trabalha para recuperar os mais de R$ 100 mil que teve de prejuízo depois daquele 20 de abril.

Recomeço

A rua onde reside Valmir, de 51 anos, foi uma das mais atingidas no Bairro Primo Tacca. Da casa – na qual ele mora com a mulher Gilse dos Santos, de 42 anos, com a filha Ísis, de um ano e dois meses, e com o filho Eduardo, que tem 15 – só sobraram as paredes e a mobília molhada no interior. A residência dos dois sobrinhos de Valmir, que fica do lado de baixo da casa dele, foi totalmente destruída.

– Nós ficamos mais de um mês morando em seis pessoas no porão aqui embaixo de casa, que tem laje, dormindo com colchão no chão até que a casa fosse coberta e a gente pudesse ter condições de voltar a morar na parte de cima – contou.

Caminhoneiro há 27 anos, ele sempre sustentou a família trabalhando como autônomo em um caminhão, que também foi arrastado e seriamente danificado pelo tornado. Sem casa e sem ter como trabalhar, Valmir contou com a solidariedade de amigos, parentes e desconhecidos para se reerguer.

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No dia, a força do vento conseguiu derrubar o caminhão. Foi uma das cenas mais impressionantes (Foto: Arquivo/Tudo Sobre Xanxerê)

– Nós não ganhamos nenhuma ajuda do município ou da Defesa Civil para arrumar a casa, só os meus sobrinhos que ganharam uma casa modular. Eu tinha um seguro de R$ 50 mil do qual ganhei só R$ 2,7 mil porque não estava especificado na apólice que cobria danos por tornado. O forro da casa nós recebemos da Igreja Católica, que também ajudou os vizinhos aqui, e o Lions que deu tijolo para os meus sobrinhos – comentou.

Um ano depois, ainda existem reparos a serem feitos na residência para que tudo fique em ordem de novo.

– Tem que pintar todas as paredes que foram esfoladas, trocar as janelas que foram quebradas, arrumar a sacada, trocar as calhas, a porta que está torta e trocar os móveis que molharam e que estão estragados mas que a gente ainda não trocou porque não tem como, por enquanto estamos pagando contas – explica Gilse.

Logo após a passagem do tornado, no momento mais crítico, foram os amigos do baralho, com quem Valmir joga todas as segundas-feiras, que ajudaram a família.

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Em frente a casa, já reformada e com o caminhão também pronto para manter o trabalho, a família hoje agradece a Deus e todos que ajudaram (Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)

– Eles cortaram as árvores, ajuntaram as laranjas que tinham caído, limparam o pátio, desmontaram os móveis e levaram para fora. As esposas deles arrancaram o carpete. Eles trabalharam até de noite, com lanternas, e cobriram a casa em um dia e meio. Eu fiquei tão boba que não sabia o que fazer e eles tomaram a frente – disse Gilse.

Ao relembrar da solidariedade dos amigos a conversa ficou mais leve e Valmir até fez graça com a esposa.

– Minha mulher não gostava de me ver ir jogar baralho, sempre reclamava. E agora você me deixa ir jogar baralho na segunda? – perguntou à mulher.

– Imagina! Agora falta o baralho, mas não falta ele! – riu ela.

 

Ajuda inesperada

Paralelamente aos reparos na residência, Valmir mandou consertar o caminhão para voltar a trabalhar. Ele levou o aparelho de câmara fria para uma empresa de Xaxim, da qual sempre foi cliente, para analisar os estragos e fazer um orçamento.

– Eu fui lá e daí um funcionário veio com as folhas do orçamento e tinha queimado todos os sensores, tem uns 50 e poucos sensores. Daí eu vi que estava tudo sem preço e eu queria saber quanto ia dar para deixar um cheque. Nisso o dono chegou e disse que eu não ia precisar pagar nada, que ele ia me ajudar.  Dai eu comecei a chorar e me desesperei. Vim para casa, chorei, depois voltei lá e disse que eu queria pagar. Ele rasgou o papel na minha frente e disse que não interessava quanto ia dar, que ele ia pagar. Então eu perguntei porque ele estava fazendo aquilo se ele nem me conhecia. Ele disse que tinha comprado 20 aparelhos que custavam R$ 100 mil cada um e se o tornado tivesse dado lá, ele tinha perdido tudo. Então ele disse que o mínimo que ele podia fazer por mim era me ajudar – contou emocionado.

O conserto da câmara fria custou R$ 10 mil e Valmir não precisou pagar. Mas ele teve um gasto de cerca de R$ 60 mil no restante do caminhão.

– Agora eu estou trabalhando para pagar as contas. O que perdi eu não recupero mais. Se for contar, dá mais de R$ 100 mil de prejuízo entre a nossa casa, o caminhão e a casa dos meus sobrinhos. Fora os móveis que temos que trocar. Mas estou feliz porque estou no final das minhas contas. Esse ano eu trabalhei só pelo tornado, não compramos uma roupa. E comemos economizando – afirmou.

 

Trauma

Mesmo mantendo a tranquilidade ao falar sobre a recuperação do prejuízo, o medo é visível na expressão de Valmir ao relembrar do momento da passagem do tornado. Medo que permanece com ele até hoje.

– Eu estava em casa e não vou esquecer nunca mais. É uma lembrança assim que, quando o tempo se arma, a gente já fica com medo. Eu tomo remédio para dormir, senão eu não durmo. Senão eu tenho que levantar cada pouco e olhar o céu, se estiver estrelado beleza, se estiver com nuvem é complicado. Não sei quando vou ficar tranquilo – disse.

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Valmir diz ainda ter dificuldades para dormir a noite e se preocupa com as condições do tempo  (Foto: Arquivo/Tudo Sobre Xanxerê)

 

Na tarde da segunda-feira (20), Valmir estava em casa com a esposa e a filha. O filho Eduardo e os dois sobrinhos tinham ido trabalhar.

– Deu aquele vento e eu fui fechar as portas do caminhão, mas o tempo não estava tão feio. Daí eu voltei para dentro, coloquei no microondas, nunca vou esquecer, um minuto e quinze para fazer café, e daí deu um ventinho e quando eu fechei a porta começou aquele barulhão. A minha esposa viu que cobriu todas as janelas de barro e não deu nem tempo de descer no porão que tem laje. Daí parou e começou a chover e ela mandou eu ir ali na casa dos piá pegar lona e não existia mais a casa dos piá, arrancou árvores e tudo. Daí fui ver o caminhão e ele estava tombado, quando eu vi o caminhão ali foi o fim. E daí começamos a ouvir os gritos das pessoas e eu fiquei meio fora – relatou.

Gilse se diz menos traumatizada com o ocorrido do que o marido, mas que também sente medo quando o tempo está para chuva. A esposa estava no quarto fazendo a filha dormir quando tudo aconteceu.

– Deu aquela rajada de barro e vento seco e eu pulei da cama e peguei a nenê e corri para a cozinha. Encontrei o Valmir e ele já me empurrou de volta para o quarto. Quando ele chegou e tentou abrir a porta, a porta não abria mais, já tinha arrancado tudo. Então ele me abraçou com a nenê e se foi tudo. Eu fiquei uns 15 minutos em choque depois que parou. O Valmir foi e voltou e eu ali, sem reação – contou Gilse.

 

Proteção divina

Apesar de tudo, Valmir e a esposa acreditam que só sobreviveram por terem sido protegidos por Deus. Ele conta que tinha uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em uma capelinha em cima do poço que fica atrás da casa. O tornado passou e a imagem ficou lá, intacta.

– Nossa casa era para ter ido, se ficou de pé é porque foi a Nossa Senhora que protegeu. Ela ficava dentro de uma casinha de pedra em cima do poço, o vento levou a casinha e ela ficou de pé e estava só colocada, não estava presa. Então é Deus que livrou nós – argumentou.

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A família acredita que a fé ajudou a passar pelo pior momento da vida (Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)

 

Futuro

Além de continuar trabalhando para tentar recuperar o que foi perdido, inclusive a paz de ter noites tranquilas de sono, Valmir comentou que a família ainda pode aumentar.

– Quem sabe a gente trabalhe para vir mais um nenê aí. E se não fosse a Ísis, eu não sei de onde teria tirado forças para continuar. Dia 20 eu vou comemorar por estar vivo, por ter me recuperado, por ter dado a volta por cima, achei que a gente não ia conseguir. E quero agradecer à Igreja Católica, os meus amigos do baralho, o Lions e o Viana de Xaxim, que consertou o aparelho do meu caminhão. Agradecer principalmente a Nossa Senhora Aparecida e a Deus por terem deixado nós aqui – disse Valmir.

Para a esposa, a passagem do tornado e a superação foram uma lição de vida para o casal.

– Agora estamos mais tranquilos, bem melhor que um ano atrás. O pensamento da gente mudou, porque tu acha que o importante é fazer bastante coisa, guardar dinheiro. Mas a gente tem que viver mais, se valorizar mais, porque a gente podia ter morrido e de que ia adiantar ter trabalhado tanto e não ter vivido? Hoje a gente está aproveitando mais – finalizou.

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